SAUDOSAS LEMBRANÇAS DE UM CAVALO


 

Estávamos  em meados de outubro. Naquele ano, havia chovido mais  cedo no Vale do Rio Doce, local de terras novas, para onde tinha sido levado por meu cunhado Barretinho. Terra quente, aquecida por quase quarenta graus, própria para engorda, onde o coionião era nativo e a água salobra.

Foi nessa terra, margens do Rio Doce, que eu cheguei no início dos cinqüenta, onde me tornei  minha segunda fazenda do Salto. Nome que sorví do córrego que passava por um de seus vales. Por ser tudo capoeira na época, comprei-a por pouco mais que nada, mais  depois de desbravada rendeu-me Muito. Por de baixo daquela densa e vegetação agreste, existia terra boa.

Antes do final daquela década, em 1958, ela já estava na sua maior parte empastada, cercada,  bem dividida, com curralama boa de aroeira bem lavrada, tirada na a certa. A casa sede terminada e com o pomar botando seus primeiros frutos. Como tinha chovido mais cedo, as margens estavam com colonião de metro, e eu satisfeito, pois o ano prometia. ia ser ano de boiada com mais de dezoito arrobas.

Naquele dia resolvera dar uma olhada na eguada, pois, estava na hora de começar a parição, logo, precisava estavam com colonião mais próximo da sede. Mandei prender também e cinco potros que estavam na hora de ama sar, Fechando três anos. Depois do almoço, João Roxo entrou na varanda, tendo a mão o velho chapéu de couro  Com seu jeito simples e desconfiado, pediu licença e falou:

 -Tá tudo preso no curral, patrão.

Quando quiser a gente começa  a mexer.

Está certo, João. Vamos só esperar um cafézinho que já está saindo.

Depois do café, que veio pelando de quente, fomos para o curral ver a bicharada. lá estavam eles. Eram cinco. Dois castanhos, um alazão, um tordilho negro e um tordilho cardão. Estavam assustados, Amontoados  num canto do curral. Como fazia tempo que não viam gente tão de perto, estavam trêmulos. Subi na régua do curral para ver melhor os animais, e logo o cardão se destacou aos meus  olhos. Era ma s imponente. Cabeça melhor. Orelhas bem feitas, coisa que sempre me agradou.

O pescoço era leve, bem lançado, e perfeitamente inserido naquela peitaria aberta. Descanelado, baixa ria limpa, pote médio... Realmente não havia mudado nada, desde que nascera. Pelo contrário, só tinha melhorado. Fazia muito tempo que eu não via satisfeito, pois, de repente já estava com jeito de cavalo. Falei para o João Roxo.  

-Êta, que esse puxou o pai no tipo, Jogo.

-É, seu Newton, m na qualidade puxou a mãe. E bufador que nem ela.

-Pois então, vamos começar por este. Os primeiros repassos  serão seus. Depois, deixa que esse eu quero acertar pessoalmente.  

 

 

Newton Sturzeneker montando Fronteira, mãe do seu saudoso Cassino.

Naquela tarde, depois do sol em clima de festa. com a vaqueira da toda assistindo, sentada nas réguas do curral. Primeiro laçava. Eh!  Vaqueiro bom de corda é que não faltava. João Roxo e melhor. Corda de sete abrandar um pouco começou a doma do cardão, que conseguia um ritual, e era feita sempre braças, tem trançada, feita de cor de veado mateiro, e bem curtida em sebo de boi, da barriguinha, porque de ouro tipo não prestava. Apesar de ser melhor, Só lançava igual dos dois lados. A sua esquerda, perigava perder alguma laçada. mas a sua direita, não precisava nem ver. Era sacudir a corda que o bicho estava seguro.

Pois Foi ass m aquele potro card8o, que m acompanhou  por muito tempo. Primeira muda feita, gordo. pelo pelinchado, já que fora criado no gordura. Quando a corda bateu no seu pescoço. e João Roxo firmou o laço na altura da cintura, com uma perna e outra atrás, para dar mais firmeza na hora do tranco, o bicho enlouqueceu.

Soltou um grunhido estranho, meteu a cabeça no meio das mãos e pulou para valer. João Roxo passou a corda no esteio de aroeira que existia centro do curral, e deixou ele pular. Enquanto pulava, João ia diminuindo o comprimento da corda, até encostar a cabeça do valente no pau Agora era passar uma fucinheira depressa. porque cavalo é bicho de fôlego curto, que enforca com facilidade.

Fucinheira passada, e cara encostada toda no esteio secular, era só deixar o bruto se bater ali o certo do dia. Esfolar a ra. Se relar bastante, porque isso era bom para que per­desse o orgulho. E ele que se preparasse. porque no dia  seguinte a porca ia torcer o rabo. Era dia que de arre na lombo.

Primeira do carola cabresto reforçado, feito de com nas largas, para agüentar esbarro de bicho atrevido, criado na larga e metido a valente. João Roxo chegou devagar, Falando com o   potro. Conversa atravessada, e que os dois entendiam. levava a mão de leve, querendo alisar sua garupa mas cardão refugava. Jogo Insistia. Tempo era o que não lhe faltava, e ele seguia conversando. Não o chamava pelo nome, porque ainda não  tinha, e isso era prerrogativa do dono.

Depois de conseguir alisar, tapa mais forte sempre ajudava o animal a se lembrar quem mandava.

O potro estacava, começando então tudo de novo. Agora era vez do baixeiro feito de co ro de bode, curtido com pelo. O bicho estacava de novo, estranhando aquela coisa no dorso. Quando começava a acostumar. chegava a vez do arreio, que era colocado com muita calma, para o bicho não negar r e estragar o serviço. Duas voltas no látego, entre a cilha e a argola, e muita rapidez no acocho, pois, quando apertasse, o cardão ia pular com vontade. Dito e feito.7ome salto e corcovas, mas não adiantava. Ficaria ali todo o dia amarrado no pau, pois era de tardinha que lá sentir no lombo o peso de um homem.

Era desse jeito que os antigos faziam, e a gente continuava tradição. Normalmente depois de todo e regaço, não tinha macho que arranjava forças para pular. Barbicacho no queixo, mololô na mão, ago­ra só precisava de um companheiro montado em cavalo de serviço, para servir de madrinha. AI, era soltar o potro e sair para a larga, no primeiro repasso. As vezes corcoveava pouco a salda. Barriga inchada, com a respiração presa, ra só andar uns em metros que o bicho começava a chegar o corpo no lugar.

Foi assim com Cassino. Nome que dei para o melhor cavalo de lida e de sela que já tive. João Roxo deu os primeiros passos, mas ele acabou de ser domado por mim. Na lida com o gado, que é o melhor exercício para deixar um animal certo de boca. E este ficou bom. Guardo boas recordações de Cassino, porque foi no sei dorso que subi e desci as incontáveis trilhas da minha mocidade. 

Era filho da minha melhor égua, de nome Fronteira, com um Cavalo Mangalarga vindo do sul de Minas, de propriedade do meu amigo Manoel Calhau. Tinha um JB na pá, e me lembro que trocaram seu nome. Não sei porque. mas passaram a chamá- lo de Volante. Coisas do seu Manoel...

Cassino morreu num dia de muito calor, por excesso de trabalho. Deu sonseira e retenção urinária, e não houve remédio nem reza que desse jeito. Felizmente me deixo uma tropa boa de tipo, estruturada, excelente de andamento e bem padronizada. Anos mais tarde, quando tornei-me sócio da AHCCMM, registrei suas Filhas, éguas essas que foram a base do meu rebanho atual.

Nota: Este texto foi escrito por Newton Sturzeneker Júnior, baseado em relatos feitos por seu pai.

 

 

 

Cassino do Porto Azul, nome que deu a este reprodutor, em homenagem ao animal que considera o melhor cavalo de lida e de sela que já possuiu.

 

 


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